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“Nenhum modelo de produção agropecuária avançou tão rapidamente na direção da sustentabilidade como o brasileiro”, diz Maurício Lopes

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“Nenhum modelo de produção agropecuária avançou tão rapidamente na direção da sustentabilidade como o brasileiro”, diz Maurício Lopes


Produzir cada vez mais, preservando os recursos naturais e superando os desafios impostos pelas mudanças climáticas, globalização de pragas e tantos outros eventos adversos que afetam a agricultura é um desafio que conta com a constante ajuda da tecnologia para ser enfrentado. Em entrevista ao Alimentação em Foco, o presidente da Embrapa, Maurício Lopes, destaca os avanços obtidos pela agricultura brasileira nos últimos anos e alerta para a necessidade de investimentos em pesquisa que suportem a continuidade do ciclo virtuoso de inovação no setor agropecuário.

Alimentação em Foco: O Brasil é visto como o país com potencial para contribuir com a redução da fome no mundo. O agronegócio brasileiro está estruturado realmente para dar essa contribuição? Qual é nosso real potencial?

Maurício Lopes: A agricultura brasileira passou por uma revolução sem precedentes ao longo das últimas quatro décadas. Investimos no fortalecimento do nosso sistema de pesquisa e inovação agropecuária, combinado com políticas públicas de estímulo ao desenvolvimento e expansão da produção de alimentos, e nos tornamos líderes na produção agropecuária no cinturão tropical do globo. Alcançamos segurança alimentar e nos projetamos como importantes provedores de alimentos para o mundo. Apesar desses avanços não podemos perder de vista que a agropecuária do futuro será necessariamente mais complexa, em função de múltiplos desafios. A produção de alimentos precisará crescer em escala global, levando em conta que a população mundial seguirá crescendo até em torno de 2050, quando tenderá a se estabilizar. Ela precisará ser mais resiliente para responder a demandas de redução da emissão de gases de efeito estufa, à preocupação crescente com a sustentabilidade, ao uso racional dos recursos, como solo e água etc. Levando em conta esses cenários, os próximos 20 anos serão estratégicos para o Brasil se consolidar como grande player global no que se refere às cadeias produtivas agropecuárias.

Alimentação em Foco: Segundo o último relatório divulgado pela FAO, até 2024 a previsão é de que quase metade das áreas cultivadas no Brasil seja ocupada pela soja. Isso representa uma ameaça ao sistema produtivo brasileiro do ponto de vista da diversidade de oferta de alimentos para a população em geral?

Maurício Lopes: A expansão da produção de soja no Brasil não significa uma ameaça aos nossos sistemas produtivos nem perigo para o abastecimento de alimentos. Isso fica claro quando se analisa a trajetória dessa cultura no Brasil e os benefícios extraordinários que esta oleaginosa produziu para o agronegócio e a segurança alimentar. A cultura da soja tornou-se nos útlimos quarenta anos um motor do desenvolvimento econômico e social, e vetor de crescimento das principais áreas agrícolas do Brasil. Mesmo que a maioria dos brasileiros não saibam, a soja faz parte do nosso dia a dia, presente nos lares e consumida por milhões de pessoas, na composição de alimentos diversos, em produtos de beleza, higiene, grande diversidade de componentes industriais, entre tantos outros. Depois de conquistar o Sul do Brasil, a cultura foi gradualmente adaptada às condições tropicais brasileiras, rumo ao Centro-Oeste. Foi quando a pesquisa, aliada ao espírito empreendedor dos agricultores, encarou o desafio e produziu cultivares adaptadas, a inédita “soja tropical”. O aumento no potencial produtivo da soja alcança hoje cerca de três vezes o das primeiras cultivares introduzidas na região Sul. A produtividade média de 3.000 kg/ha, alcançando até 7.000 kg/ha em algumas lavouras, demonstra o grande avanço tecnológico e o extraordinário potencial produtivo dessa cultura. Esses avanços garantiram a preservação de muitas áreas de vegetação nativa, pois, com a produtividade aumentada, milhões de hectares que deveriam ter sido incorporados ao sistema produtivo foram poupados para atender a demanda crescente de soja no mundo.

Alimentação em Foco: Quais são hoje as possíveis grandes ameaças à agricultura brasileira?

Maurício Lopes: Os contextos cada vez mais dinâmicos nos quais a agricultura está inserida demandarão respostas mais rápidas e necessariamente mais complexas. A agricultura precisará se tornar mais resiliente para responder a demandas de redução da emissão de gases de efeito estufa, a preocupação crescente com a sustentabilidade, o uso racional dos recursos, como solo e água etc. Teremos que priorizar tecnologias que permitam a adaptação da agricultura a situações de seca e estresses hídricos, no contexto das mudanças climáticas, em função das constantes ocorrências de extremos climáticos, como o que vivemos agora, com intensa seca em partes do Brasil. Outro desafio importante para a agricultura brasileira é o movimento de organismos ou espécies invasoras exóticas de uma região para outra, em função do comércio, transporte, trânsito e turismo. Globalização de pragas leva ao deslocamento de organismos de uma região para outra, intencionalmente ou não, com importante potencial de impactos econômicos, ambientais e sociais. Assim, forte ênfase em inovação tecnológica para suporte à defesa agropecuária brasileira é também uma das nossas prioridades.

Alimentação em Foco: Pensando nas questões ambientais, como a produção agrícola brasileira está hoje? Praticamos uma agricultura sustentável?

Maurício Lopes: A agricultura brasileira já avançou substancialmente na direção da sustentabilidade. O Brasil não é superado por nenhum grande produtor de alimentos na extensão da sua cobertura vegetal natural – 62% do total. O significativo aumento de produtividade de grãos e carnes economizou áreas e evitou avanço da agropecuária sobre biomas sensíveis, como a Amazônia. A moderna agricultura brasileira está assentada sobre três grandes conjuntos de avanços, todos focados no conceito da sustentabilidade. O primeiro foi o desenvolvimento de conhecimentos e tecnologias que permitiram a transformação de grandes extensões de solos ácidos e de baixa fertilidade em solos férteis, aptos a uma agricultura moderna, produtiva e competitiva, como a região do Cerrado, por exemplo. Outro marco foi a tropicalização e a adaptação de plantas e de animais originários de todas as partes do mundo aos biomas brasileiros. Esse trabalho de melhoramento genético teve impacto muito relevante na produção de grãos e na adaptação de gramíneas e leguminosas forrageiras e no desenvolvimento de raças animais adaptadas à região tropical. Nenhum modelo de produção agropecuária avançou tão rapidamente na direção da sustentabilidade como o modelo brasileiro. Há a fixação biológica de nitrogênio, processo que garante a competitividade da soja brasileira pela possibilidade de eliminar fertilizantes nitrogenados. Hoje essa tecnologia é utilizada em toda a área de produção de soja e proporciona anualmente uma economia de mais de US$ 7 bilhões ao país. Além das tecnologias de controle biológico e no Manejo Integrado de Pragas (MIP), que contribuem para a sustentabilidade da agricultura brasileira. E o plantio direto, uma revolução construída pelos agricultores. Nesse momento estamos desenvolvendo os sistemas de integração lavoura-pecuária e lavoura-pecuária-floresta, intensificando o uso das terras, promovendo a fixação de carbono e economizando recursos naturais.

Alimentação em Foco: A redução das emissões de carbono é o principal caminho? Como estamos e em que pontos podemos melhorar?

Maurício Lopes: Descarbonizar a economia, a agricultura incluída, é uma necessidade para todos os países. Mas é preciso olhar além desse desafio. A população mundial seguirá crescendo, mais urbanizada e exigente, em um planeta de recursos naturais finitos. Vai exigir mais alimentos, energia e bem-estar, o que requer uso mais eficiente das riquezas da natureza − e será preciso conservar tais bens para as gerações futuras. O estudo Visão 2014-2034: o futuro do desenvolvimento tecnológico da agricultura brasileira, lançado pela Embrapa em 2014, sinaliza que, por volta de 2030, poucos países vão concentrar boa parcela da população e da renda. A população mundial, gradativamente se tornará mais idosa. A renda per capita em importantes países consumidores irá se elevar, assim como a demanda por proteínas nobres como leite, carne, ovos, peixes, frutas, verduras e legumes. Em duas décadas, deve aumentar em 3 bilhões o número de consumidores do planeta e a região da Ásia-Pacífico concentrará cerca de 60% da classe média mundial. Tão significativo quanto o crescimento da população e a mudança das exigências e preferências dos consumidores é o fato de que tal cenário deverá ser observado mais em regiões onde é baixa a possibilidade de se ampliar a produção de alimentos. Portanto, repousa sobre a América Tropical a grande responsabilidade de alimentar a sua população e, ao mesmo tempo, ampliar a ação de prover alimentos para um mundo que seguirá crescendo e demandando em quantidade, diversidade e alto padrão de qualidade. Fazê-lo, de forma sustentável, demandará sofisticação tecnológica que amplie a eficiência de uso dos recursos ambientais – especialmente água, solo e biodiversidade – e garanta serviços ecossistêmicos adequados, como reciclagem de resíduos, recomposição das reservas hídricas, melhoria da atmosfera, dentre outros. O Brasil lidera um grande esforço de geração e uso de tecnologias “poupa-recursos”, de baixa emissão de carbono, capaz de promover a expansão sustentável da produção agrícola. Expansão baseada mais em ganhos na produtividade da terra, em sintonia com o novo Código Florestal. O Plano ABC – “Agricultura de Baixa Emissão de Carbono” é uma arrojada política pública que visa ampliar a recuperação de pastagens degradadas, a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), o sistema de plantio direto (SPD), a fixação biológica de nitrogênio (FBN), florestas plantadas e o tratamento de dejetos animais.

Alimentação em Foco: A pesquisa é a saída para o aumento da produtividade e para uma agricultura cada vez mais alinhada ao conceito da sustentabilidade?

Maurício Lopes: Sim, é preciso que se compreenda que a ciência é motor do desenvolvimento sustentável, e evitar falhas de continuidade no importante processo de geração e adaptação de tecnologias implica em volumosos, porém necessários, investimentos em pesquisa. Os retornos aos investimentos em pesquisa ocorrem em médio a longo prazo. Hoje colhemos os frutos de muita pesquisa feita no passado, e a agropecuária do futuro depende dos investimentos correntes em pesquisa e inovação. Para sermos competitivos, a longo prazo, é necessário isonomia de condições diante das principais potências agrícolas no mundo. Os países desenvolvidos investem cerca de 3% do PIB agropecuário em pesquisa, ante 1,8% no Brasil. Assim, há necessidade de se elevar os investimentos em pesquisa no país, para garantir a continuidade do ciclo virtuoso de inovação no setor agropecuário, além de se incentivar o engajamento do setor privado, pois o aporte governamental, isoladamente, ainda que ampliado, não será suficiente para sustentar os níveis de investimentos em pesquisa necessários para uma agropecuária competitiva nas próximas décadas.




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