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“Precisamos unir esforços para dar à segurança hídrica a importância que ela merece”, diz Benedito Braga

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“Precisamos unir esforços para dar à segurança hídrica a importância que ela merece”, diz Benedito Braga


Presidente do Conselho Mundial da Água fala sobre o evento mundial que será realizado no Brasil em 2018

O 8o. Fórum Mundial da Água será realizado de 18 a 23 de março de 2018 em Brasília. O evento, realizado a cada três anos, tem como objetivo aumentar a participação do tema água na agenda política dos governos, além de promover o aprofundamento das discussões, troca de experiências e formulação de propostas concretas para os desafios relacionados aos recursos hídricos.

Para o presidente do Conselho Mundial da Água e secretário de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo, Benedito Braga, o fórum é uma oportunidade para que governantes discutam estratégias eficazes de compartilhamento deste recurso natural essencial à vida. Professor Titular de Engenharia Civil e Ambiental na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), cargo do qual está afastado para exercer a função de Secretário de Estado, Benedito Braga é Ph.D em recursos hídricos em Stanford University, Estados Unidos.

Em entrevista ao Alimentação em Foco, ele falou sobre a sua expectativa em relação ao evento, que acontece pela primeira vez no hemisfério sul, e também sobre os aprendizados obtidos com a crise hídrica enfrentada pelo Estado de São Paulo entre 2014 e 2015.

Alimentação em Foco: Como foi a escolha do Brasil para sediar o Fórum Mundial da Água em 2018?
Benedito Braga:
Em 2014, no Fórum realizado na Coreia do Sul, a candidatura do Brasil foi selecionada e Brasília escolhida como cidade-sede do evento. Desse modo, o evento ocorrerá pela primeira vez no hemisfério sul. O Brasil é um país continental, que tem em seu território uma das maiores reservas de água doce em estado líquido do mundo, e cenários diversos, desde o excesso de chuvas até a seca histórica no semiárido do Nordeste. Por todos esses fatores físicos e por tudo o que o País tem avançado em governança, engenharia e pesquisa na área, acreditamos que o Brasil pode realizar um evento de excelente nível técnico e político.

Alimentação em Foco: Como estão os preparativos para o Fórum?
Benedito Braga:
A parte de organização está à cargo de Brasília, na figura do Governo do Distrito Federal, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, através da ANA – Agência Nacional de Águas. O Fórum terá painéis globais e também regionais, com temas como investimento, ecossistemas, governança e sustentabilidade não só na área ambiental, mas também na econômica e social. A parte mais técnica do evento acontecerá no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. A parte empresarial terá lugar no Estádio Mané Garrincha, na feira anexa.

Alimentação em Foco: Passamos recentemente por uma grave crise hídrica em São Paulo. O que aprendemos com ela?
Benedito Braga:
As soluções encontradas e o aprendizado são importantes, tanto que outros países e outros estados têm vindo conhecer o que foi feito aqui no período. Acredito que temos dois legados muito claros e importantes da crise hídrica. O primeiro, de caráter comportamental, é a mudança de hábitos no consumo da água por parte da grande maioria da população, e o segundo, no plano da infraestrutura, é a constatação de que, para enfrentar os desafios da variabilidade do clima, é necessário contar com estruturas redundantes. Mais do que nunca, na crise, todos sentimos o quanto a água é importante e o debate sobre o tema tomou conta da sociedade e daqueles que são encarregados de decisões na esfera político-governamental. A aderência de mais de 80% da população da Grande São Paulo à atitude de racionalização da água, estimulada pelas campanhas educativas do Governo do Estado e da Sabesp e pela adoção do bônus/ônus, mostra o quanto foi bem sucedida essa ação. E a permanência de índices de consumo cerca de 15% inferiores aos de antes da crise deixa claro que essa mudança comportamental veio para ficar. No campo da infraestrutura, obras de redundância, como as interligações Rio Grande-Alto Tietê e Jaguari-Atibainha, vêm para trazer um nível de segurança hídrica muito acima do que tínhamos antes. São obras que ficarão boa parte do tempo de “stand by”, mas que poderão ser acionadas a qualquer momento quando necessárias. Em suma, caminhamos para o futuro com muito mais segurança e conhecimento, preparados para novos desafios que venham a ocorrer.

Alimentação em Foco: Que países o senhor considera exemplo hoje em gestão hídrica e por qual iniciativa?
Benedito Braga:
A Austrália é um país que tem uma experiência interessante, passou por uma crise hídrica longa, entre 2000 e 2010. Trataram o tema com muita competência e desenvolveram um mercado de alocação de água para o benefício maior de todos os interessados, entre abastecimento humano, irrigação, indústria, geração de energia e os seus múltiplos usos. Nos Estados Unidos, em alguns estados do Oeste, como Colorado, Arizona e Califórnia, também foi desenvolvido um sistema de alocação. Outro exemplo interessante é a França, com seu sistema de comitês de bacia hidrográfica e de cobrança pelo uso da água, que inspirou o modelo brasileiro. Essa cobrança permite levantar recursos para a despoluição dos rios, por exemplo.

Alimentação em Foco: Qual é o maior desafio brasileiro neste tema?
Benedito Braga:
O Brasil, como dissemos anteriormente, se inspirou no modelo francês. São os comitês de bacia, os verdadeiros parlamentos da água, onde são discutidos os destinos da bacia hidrográfica. Participam representantes dos municípios, ONGs, usuários da água em geral. Um dos nossos desafios com esse modelo, no Brasil, é a maior integração. No caso da França, é um sistema unitário, mas como o Brasil é federativo, muitas bacias são compartilhadas pelos estados, então é preciso desenvolver mais a articulação entre eles. Outro desafio é o acesso aos serviços de saneamento. Houve avanços nos últimos anos na questão do abastecimento de água e hoje esse serviço atinge a maior parte das zonas urbanas do país. Mas o abastecimento de água tratada nas zonas rurais e a questão de coleta e tratamento de esgoto como um todo no país ainda precisa avançar muito. Em São Paulo temos uma situação diferenciada. O interior do estado já está atingindo a situação de praticamente 100% da população atendida com água tratada, coleta e tratamento de esgoto. Na capital paulista e no Litoral, devemos atingir estes índices nos próximos anos. Mas os números gerais do país ainda são ruins. Segundo os últimos dados do Trata Brasil (SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento 2015) o Brasil tem 83,3% da população atendida com água tratada, 50,3% de coleta de esgoto e 42,67% do esgoto tratado.

Alimentação em Foco: Com relação ao Fórum, qual é a sua expectativa?
Benedito Braga:
O Fórum Mundial da Água é o evento mais importante sobre o tema da água no mundo. Ele contribui para o diálogo no processo decisório em nível global, visando a segurança hídrica através da criação de infraestrutura e uso racional e sustentável deste recurso. Participam governantes, especialistas acadêmicos, representantes de órgãos de fomento, ONGs e empresas que atuam no setor. O tema de 2018 – “Compartilhando a Água” – é muito importante, já que temos 261 países que dividem bacias hidrográficas e com esse recurso se tornando cada vez mais escasso, é fundamental criar políticas que permitam o seu uso racional em conjunto. O Brasil, por exemplo, compartilha a Bacia Amazônica e a Bacia do Paraná/Prata com diversos países. Outra expectativa nossa é que o Governo Brasileiro realize um grande esforço para convocar mandatários e representantes dos outros países a participarem. Isso porque um dos papéis fundamentais do Fórum é estimular os governos a se engajarem na questão da água. Superar os desafios da questão da água hoje no mundo é um chamado para as lideranças nos níveis governamentais mais altos em todo o mundo. Precisamos continuar trabalhando juntos e unir esforços para dar à segurança hídrica a importância que ela merece.




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