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“Segurança alimentar é a única garantia de paz universal”, diz Roberto Rodrigues

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“Segurança alimentar é a única garantia de paz universal”, diz Roberto Rodrigues


Alimentar mais de 9 milhões de pessoas em 2050 é o grande desafio mundial. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) contam com um crescimento de cerca de 40% na produção brasileira de alimentos para atender a esta demanda. Em entrevista ao Alimentação em Foco, o coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas e Embaixador Especial da FAO para o Cooperativismo, Roberto Rodrigues, fala sobre os caminhos que a agricultura brasileira precisa trilhar para contribuir com o enfrentamento deste desafio.

Alimentação em Foco: O senhor acredita que o Brasil pode contribuir para o combate à fome no mundo?

Roberto Rodrigues:Acho que a questão mais importante disso tudo éo porquê a ONU se preocupa com segurança alimentar. Porque é importante ter comida para todo mundo? Não!É por uma razão muito mais sensível. É porque não existe paz onde há fome. Então a segurança alimentar é a única garantia de paz universal e é por isso que a ONU, cuja função precípua é a garantia da preservação da paz,se preocupa com a segurança alimentar. Eu acho que essa questão das migrações europeias, do Oriente Médio, é a prova mais contundente disso. Milhões de pessoas fogem dos países do Oriente Médio, da Ásia, da África, da Europa, para ter emprego, para ter comida.

Alimentação em Foco: E o Brasil tem fôlego para aumentar em 40% a sua produção?

Roberto Rodrigues: AOCDE acha que o Brasil pode crescer 40% em 10 anos por três razões:a primeira é que nós temos uma tecnologia tropical sustentável espetacular. A segunda é que temos terra disponível e a terceira é que temos gente capaz. Vamos pegar cada um desses três temas e dar uma olhadinha neles. Nos últimos 25 anos, a área plantada com grãos no Brasil cresceu 53% e a produção de grãos cresceu 261%, cinco vezes mais, graças àincorporação de tecnologia gerada na área de pesquisa. É um número de cair o queixo!A geração de tecnologia nos órgãos de pesquisas federais, estaduais, municipais, privados e até de empresas multinacionais foi um negócio impressionante. E esse salto não foi só com grãos. Carne de frango, crescemos 450% em 25 anos, suínos 240% em 25 anos. Em café, cana, laranja, em tudo foi similar. O Brasil é campeão mundial hoje em muitas culturas por causa da tecnologia.

Alimentação em Foco: E quanto à disponibilidade de terras? Há como crescer e preservar?

Roberto Rodrigues:Há uma série de temas, digamos, conflitantes nesta conversa.Mas o que não é conflitante é que o Brasil tem 851 milhões de hectares, é o total do país. O que ninguém sabe é que desse total apenas 84 milhões são cultivados com todas as plantas, ou seja, menos de 10%. E temos mais 176 milhões de hectares de pastagens, ou seja, menos de 20%. Então não chega a 30% o território brasileiro cultivado com agricultura e pastagem.Mesmo com isso, nós somos o maior exportador mundial de açúcar, suco de laranja,café, carne de frango, carne bovina, complexo de soja e tabaco, crescendo em algodão, carne suína, flores, frutas etc. Em 2000, o agronegócio brasileiro exportou 21 bilhões de dólares. No ano passado, 15 anos depois,foram 88 bilhões de dólares, ou seja, quatro vezes mais, mesmo enfrentando no período a maior crise financeira mundial (2002-2010) dos últimos 50 anos, em que o comércio mundial refluiu no mundo e o nosso continuou aumentando. Com um território que ainda oferece, de acordo com o IBGE, 78 milhões de hectares que podem ser agricultados, e cultivando 84 milhões, a concorrência se apavora conosco. Uma coisa é a academia, a OCDE, que quer que a gente cresça 40%. Outra coisa é o produtor de carne da Irlanda, de soja dos EUA, de açúcar da Austrália, que tem pavor do crescimento da gente e cria dificuldades nas rodadas de comércio, impedindo que a gente avance e mantendo o protecionismo dos países desenvolvidos.

Mas o que ninguém sabe é que desses 78milhões de hectares agricultáveis do Brasil, e considerando as leis comoo Código Florestal, as terras para índios e quilombolas, reservas nativas, parques nacionais, estaduais e privados,etc., sobram 15 milhões de hectares apenas que podem legalmente ser incorporados à área produtiva. Desses 15, 10 milhões virão de pastagens que serão convertidas para a agricultura, e 5 dedesmatamento legal. Acho totalmente hipócrita dizer que não vai desmatar nenhuma árvore, isso é mentira. Agora o que nós temos que fazer é impedir o desmatamento ilegal, isso é uma questão de princípio.15 milhões de hectares é mais do que muito país. Então o horizonte de crescimento é muito notável.

Alimentação em Foco: E quanto às pessoas?

Roberto Rodrigues:Este é um ponto que entra até em minha experiência pessoal. Eu dei aula por 40 anos na universidade, na UNESP, então eu ajudei a formar muita gente, mas, sobretudo, assistia a formação. Quando eu dava aula, havia apenas cinco, sete alunas.Hoje metade das turmas é composta por meninas. E elas estão ganhando todos os prêmios de gestão das universidades. Nas fazendas, nas cooperativas, na agroindústria, as meninas estão ligadas no computador, sabem o preço em tempo real de qualquer commodities em Chicago, como está Tóquio, se choveu na Argentina ou não. A informação hoje na agricultura brasileira é muito contemporânea, moderna e jovem. Se você vai a Europa hoje, 30% da produção agrícola acontece em áreas arrendadas porque os jovens não querem ficar no campo. Aqui não, aqui por onde eu ando, eu sou o mais velho sempre, o que é ruim para mim, mas ótimo para o Brasil. Tem uma meninada extraordinária tocando a agricultura. Tecnologia, terra e gente são três condições que nenhum outro país reúne como o Brasil.

Alimentação em Foco: Então temos tudo para alcançar o desafio lançado pela OCDE?

Roberto Rodrigues:Não, não vamos alcançarporque infelizmente o Brasil até hoje não desenvolveu uma estratégia para isso. Pior: estamos de costas para essa demanda mundial. A gente tinha que atender essa demanda e transformar o Brasil no campeão mundial da segurança alimentar e, portanto, no campeão mundial da paz. Mas o que falta? Uma estratégia articulada que contemple vários temas.

O primeiro deles, que está na boca do povo e todo dia na mídia, é logística e infraestrutura. O Brasil é um país continental cuja produção avançou para o sertão sem correspondente logística. Isto faz perder produtividade e é um problema recorrente há duas décadas e ninguém faz nada.Agora parece que o governo interino está trabalhando com concessões e programas, parece que a coisa vai avançar.Esse é o tema central: logística e infraestrutura.

Em segundo: política de renda para o agricultor. Por que os países desenvolvidos montaram política de renda? Para estabilizar a esfera produtiva e garantir o abastecimento. Se o produtor quebra e vai embora, quem vai produzir para o consumidor? Proteger a agricultura não é proteger o agricultor é proteger o país. A política de renda tem esse objetivo. E, por último, mecanismos de comercialização, leilão de opções, fortalecimento da bolsa, mercado futuro. A gestão de risco tem que estar incluída nesse processo de renda.

Alimentação em Foco: O ano de 2016 será bom para a agricultura brasileira?

Roberto Rodrigues: A crise político-financeira do Brasil também abateu-se sobre a agricultura, basicamente no crédito, que ficou muito mais escasso, caro e seletivo. O El Niño afetou diretamente a franja norte do Brasil, o norte do Mato Grosso, o Tocantins, o Maranhão, o Piauí e a Bahia. O sul sofreu com o excesso de chuva. Então o El Niño fez um estrago considerável que não perturbou o agro como um todo, mas perturbou os produtores. A agricultura não vai tão mal porque os preços subiram. Quem colheu ganhou dinheiro.Nesse cenário, alguns segmentos aparecem piores ou melhores. De maneira geral, vejo um horizonte positivo para o agronegócio que ainda crescerá mais do que o PIB nacional. Ainda vamos salvar a balança comercial, os empregos, ainda vamos salvar a economia brasileira mais um ano.




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