Alimentação em Foco Menu
“Temos uma capacidade maior que o banco de Svalbard”, diz pesquisador da Embrapa

Compartilhar com Facebook Compartilhar com Twitter Compartilhar com Google+ Compartilhar com LinkedIn Compartilhar com Pinterest
03/04/2017
Institucional

“Temos uma capacidade maior que o banco de Svalbard”, diz pesquisador da Embrapa


Juliano Pádua explica como funciona o maior banco de sementes da América Latina

Reunindo 120 mil amostras de 960 diferentes espécies, conservadas em câmaras frias a 20° abaixo de zero, o banco genético de sementes da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia é o maior da América Latina. Focado na preservação de sementes relacionadas à agricultura e alimentação, o banco funciona como um backup de todos os bancos de conservação mantidos pela empresa nas diferentes regiões brasileiras, o que o torna um manancial genético à disposição dos cientistas para o desenvolvimento de novos produtos e tecnologias com características de interesse da sociedade, como, por exemplo, resistência a pragas e doenças, tolerância a estresses climáticos e maior teor nutricional, entre outras aplicações.

Se comparado ao Banco Global de Svalbard, na Noruega, o banco brasileiro tem uma capacidade superior de conservação, porque adota também tecnologias como a conservação in vitro e a criopreservação, indicadas para conservar espécies para as quais não é possível a conservação de sementes, como a banana, o café e a cana-de-açúcar, por exemplo.

Em entrevista ao Alimentação em Foco, o curador da Coleção de Base, Juliano Gomes Pádua, explica o funcionamento desta riqueza nacional.

Alimentação em Foco: Que tipos de sementes existem no banco?

Juliano Gomes Pádua: No nosso Banco Base de Sementes (Colbase), o foco é a conservação de espécies relacionadas à agricultura e alimentação. Assim, temos sementes de cereais, hortaliças, árvores frutíferas, medicinais, fibrosas, florestais, oleaginosas e forrageiras, por exemplo. Nosso acervo é bem diverso, contando com cerca de 120 mil amostras de 960 diferentes espécies.

Alimentação em Foco: Como é o feito o abastecimento deste banco?

Juliano Gomes Pádua: O banco faz parte de um sistema de conservação de recursos genéticos, coordenado pelo Sistema de Curadorias de Germoplasma (elemento dos recursos genéticos que maneja a variabilidade genética entre e dentro da espécie, com fins de utilização para a pesquisa em geral, especialmente para o melhoramento genético, inclusive a biotecnologia). A alimentação da Colbase é realizada pelos Bancos Ativos de Germoplasma (BAGs). Dessa forma, o acervo conservado na Coleção de Base reflete o que está sendo conservado dentro deste sistema.

Alimentação em Foco: Quais são os critérios para que a semente passe a integrar o banco? Precisa ser uma planta genuinamente brasileira?

Juliano Gomes Pádua: Apesar do Brasil ser uma das maiores potências agrícolas do mundo, nossa agricultura é baseada no cultivo de espécies exóticas, isto é, de espécies que não são nativas de nosso país. Assim, nosso acervo acaba refletindo esse cenário, sendo constituído por muitas espécies exóticas. A Colbase segue padrões internacionais de conservação. Estas normas estipulam uma quantidade mínima de sementes que cada amostra deve conter, e também um percentual mínimo de viabilidade, expresso principalmente pelos testes de germinação que são realizados. Para as grandes culturas, é preciso que uma amostra seja composta por, no mínimo, 1.500 sementes, com percentual de germinação superior a 85%. No caso de espécies não domesticadas, caso dos parentes silvestres das espécies cultivadas, estes padrões são menos rígidos, sendo estabelecidos em conjunto com o curador responsável pelo envio destas amostras para a Colbase. Assim, do ponto de vista conservacionista, não há qualquer restrição ou preferência por uma espécie, levando-se em consideração a sua origem – se brasileira ou exótica. Pesquisadores do CIMMYT (Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo), localizado no México, local que faz parte da área de origem do milho, identificaram na Colbase amostras desta espécie que não faziam parte de sua coleção. Isso mostra a relação de interdependência que existe entre os países em relação à conservação e ao uso da variabilidade genética dos cultivos, refletindo diretamente em aspectos da segurança alimentar, pesquisa e melhoramento genético.

Alimentação em Foco: E quais os critérios para os cientistas acessarem o banco?
Juliano Gomes Pádua:
A função da Colbase é manter cópias de segurança dos materiais que fazem parte dos bancos ativos de germoplasma (BAGs). Estes BAGs estão localizados nas unidades descentralizadas da Embrapa, que estão espalhadas por todo o território brasileiro. Nos BAGs é que são realizadas as atividades de caracterização e avaliação dos acessos. Assim, as sementes estão sendo constantemente usadas. Estando no campo, as plantas estão sob ameaça do ataque de pragas e doenças, intempéries, e outros riscos que podem levar à perda total das plantas e sementes. No caso de acessos de bancos de germoplasma, esses riscos são ainda maiores, pois muitos deles são genótipos não melhorados. Assim, em caso de perda, a Colbase é acionada e os acessos perdidos são repostos para o BAG. Esta é a única forma de acesso ao acervo da Colbase. As sementes depositadas só podem ser enviadas ao BAG que nos encaminhou as sementes. Caso alguma instituição tenha interesse em algum acesso específico, o contato deve ser feito com o BAG responsável pelo produto em questão. Caso o BAG não possua o acesso solicitado, é verificada a existência do mesmo na Colbase. Em existindo uma subamostra de poucas sementes, nunca maior que 100 sementes, é enviada ao BAG, que realiza a multiplicação e finaliza o atendimento da solicitação.

Alimentação em Foco: Como se dá a manutenção das sementes para que o banco não se esgote?

Juliano Gomes Pádua: A cada 10 anos de armazenamento, testes de germinação são repetidos, de forma a termos um perfeito acompanhamento da qualidade do material conservado. Assim, para mantermos sementes conservadas, com qualidade, é preciso “gastar” sementes. Há, ainda, as solicitações de acessos por parte dos BAGs. Quando estipula-se o número mínimo de sementes a ser conservado por amostra, pensamos em quantas sementes serão utilizadas nos testes de germinação, tanto quando da chegada desses materiais, quanto durante o processo de conservação na etapa de monitoração. São ainda computadas as amostras solicitadas. Assim, necessita-se de 100 sementes para o teste de germinação inicial e a mesma quantidade para as monitorações. Considerando-se um período de armazenamento de 50 anos, necessitaremos de 600 sementes. Somando-se a isso a solicitação de amostras, calculamos a retirada de 50 sementes a cada 10 anos, resultando em mais 500 sementes. Há, ainda, que se considerar a representatividade genética da amostra encaminhada para conservação, que depende do sistema reprodutivo da espécie. Porém, se considerarmos a conservação de 1.500 sementes, poderemos cumprir o papel de conservar a diversidade genética e atender às demandas dos BAGs.

Alimentação em Foco: As sementes permanecem com qualidade por 50 anos?

Juliano Gomes Pádua: Temos que ter atenção especial à qualidade das sementes conservadas. Caso o percentual de germinação de um acesso esteja menor que 85%, detectado durante a monitoração, uma amostra é encaminhada para o BAG. Este fará a regeneração (plantio e colheita de novas sementes) das sementes do acesso e nos reencaminhará para conservação em longo prazo. Assim, temos como garantir que nossas sementes conservadas sempre estejam com excelente qualidade. Da mesma forma, monitoramos a quantidade de sementes de cada acesso. Sempre que um acesso estiver com menos de 1500 sementes, é solicitado o serviço de multiplicação. Com esses dois critérios, conseguimos manter um estoque adequado em quantidade e com alta qualidade.

Alimentação em Foco: Hoje fala-se muito em alimentos em extinção, alguns inclusive em risco de extinção botânica. O banco tem também a função de preservar essas espécies ou está mais focado em contribuir para o desenvolvimento de melhoria genética?

Juliano Gomes Pádua: Nossas maiores coleções correspondem às culturas de expressão econômica. Porém, há também grande preocupação com outras espécies, as quais denominamos espécies negligenciadas. Nosso trabalho vai além da preservação das espécies. Nos preocupamos com a diversidade genética que existe dentro de uma espécie. Por exemplo, mesmo no caso do milho, uma espécie largamente cultivada, há risco de perda de diversidade. Apesar de não ser nativo do Brasil, o milho é cultivado há milhares de anos por tribos indígenas no território brasileiro.Tal fato leva à origem de novas combinações gênicas que só são encontradas no país. Em 1995, a Colbase reintroduziu variedades de milho indígena aos Krahô, pois estes as haviam perdido, um exemplo clássico de extinção local. Fato similar ocorreu com a reintrodução de uma variedade de trigo que era cultivada na região da Chapada dos Veadeiros (GO). Esta variedade, denominada ‘trigo veadeiro’, foi introduzida no país, segundo relatos, em meados do século XVIII, por agricultores egípcios que ocuparam a região de Alto Paraíso (GO). Há também o trabalho de conservação de espécies de baixa expressão econômica, como quiabo, mentrasto, guandu, maxixe, pitaia, bucha, jiló, dentre outras.

Alimentação em Foco: Como é a integração com o Banco Global de Svalbard?

Juliano Gomes Pádua: A integração é feita via BAGs. A Embrapa, representando o Brasil, já encaminhou amostras de milho, arroz e feijão para Svalbard. Tanto a Colbase quanto Svalbard têm o mesmo objetivo: conservar cópias de segurança de acessos em longo prazo. A diferença entre as duas coleções é que o nosso banco atua nacionalmente, enquanto o de Svalbard tem atuação internacional. Em termos técnicos, quanto à metodologia de conservação, somos equivalentes. Se levarmos em consideração que a Embrapa adota outras tecnologias para conservar espécies, como a conservação in vitro e a criopreservação, temos uma capacidade infinitamente maior para conservar espécies que o banco de Svalbard, que conserva apenas sementes. Estas tecnologias citadas são indicadas para conservar espécies para as quais não é possível a conservação de sementes, como é o caso da banana, do café e da cana-de-açúcar, por exemplo. Svalbard é um banco de grande importância, principalmente para países que não têm condições técnicas ou econômicas de manter uma estrutura para conservação em longo prazo, o que não é o caso do Brasil. Porém, ter nosso patrimônio genético conservado em um outro banco diminui a probabilidade de perda de variabilidade genética, constituindo dessa forma uma importante estratégia de conservação.

Para saber mais:

Svalbard Global Seed Vault

Embrapa

 




O que você procura?





fechar

Obrigado!


Seu cadastro foi realizado com sucesso.



fechar
Loading